Já deste por ti a tentar explicar a alguém em que é que acreditas mesmo? Ou talvez, durante a Missa de Domingo, já te apanhaste a recitar o Credo em “piloto automático”, sem pensar muito no significado daquelas palavras.
Se o Cristianismo fosse um video-game, o Símbolo da Fé (a que normalmente chamamos Credo) seria o mapa do mundo ou o guia essencial do jogador. Não é apenas uma lista de regras ou um texto antigo para decorar; é a declaração de identidade dos cristãos há quase dois mil anos. É o teu “GPS” para não te perderes na fé.
Vamos desmontar isto e perceber por que razão este texto é tão importante para nós cristãos.
1. O que é, afinal, o “Símbolo da Fé”?
Antigamente, a palavra “símbolo” (do grego symbolon) significava metade de um objeto partido (como um selo ou uma moeda) que duas pessoas guardavam. Quando se reencontravam, juntavam as metades para provar a sua identidade e a sua aliança.
O Credo é exatamente isso: o nosso sinal de reconhecimento. Ao recitá-lo, tu estás a dizer: “Este é o meu grupo. É nisto que eu empenho a minha vida.”
“O Símbolo da Fé é, portanto, o sinal de reconhecimento e de comunhão entre os crentes.” — Catecismo da Igreja Católica (CIC) nº 188
Existem duas formas principais que rezamos na Igreja:
- O Símbolo dos Apóstolos: É o mais antigo e curto. É considerado o resumo fiel da fé dos primeiros apóstolos de Jesus. Veja aqui
- O Símbolo Niceno-Constantinopolitano: É aquele mais longo que costumamos rezar ao Domingo. Nasceu dos primeiros grandes concílios da Igreja para explicar melhor as coisas quando surgiam dúvidas. Veja aqui
2. As Três Grandes “Etapas” do Credo
O Credo está estruturado em três partes principais. É uma viagem pela tua própria história, dividida pelas três Pessoas da Santíssima Trindade.
Primeira Parte: Deus Pai, o Criador
Tudo começa na origem. Acreditar em Deus Pai significa saber que o Universo não é um acidente cósmico sem sentido, e que a tua vida não é uma obra do acaso. Foste desejado! (Jeremias 1, 5)
- Na Bíblia: “No princípio, Deus criou o céu e a terra.” (Génesis 1, 1)
- No Catecismo: “A criação é o fundamento de ‘todos os desígnios salvíficos de Deus’ […] o começo da história da salvação” (CIC nº 280).
Segunda Parte: Jesus Cristo, o Filho
Esta é a parte central e mais longa do Credo, porque o Cristianismo gira em torno de uma Pessoa real que pisou a terra. Jesus não é um mito ou uma personagem de uma historia de super-heróis, ele é Deus que se fez homem, como tu e eu. Ele viveu, amou, sofreu na pele a injustiça e venceu a morte.
- Na Bíblia: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1, 14)
- No Catecismo: “Jesus Cristo é Senhor: possui o poder soberano. […] Ele é o Senhor do mundo e da história” (CIC nº 669). A ressurreição de Jesus é a prova de que o amor e a vida têm sempre a última palavra, mesmo quando tudo parece perdido.
Terceira Parte: O Espírito Santo, a Igreja, a Comunhão dos Santos e a Vida Eterna
O Espírito Santo é a “energia”, o sopro de Deus que actua em ti hoje. É Ele que te dá coragem para seres diferente e para ires contra a corrente. Mas o Espírito Santo não age sozinho; Ele cria uma rede viva de ligação entre todos nós. É aqui que entram os pontos mais desafiantes e bonitos do Credo:
- A Igreja: A Igreja não é apenas um edifício de pedra ou uma instituição antiga. A Igreja és tu, com os teus amigos, com a tua paróquia e com os cristãos do mundo inteiro. É o “Corpo de Cristo” na Terra. Uma Igreja que o Credo define como una (unida), santa (porque Deus está nela), católica (que significa universal, para todos) e apostólica (enraizada nos Apóstolos).
- Na Bíblia: “Vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um membro dele.” (1 Coríntios 12, 27)
- No Catecismo: “A Igreja é este povo de Deus que o Espírito Santo gera e reúne […] Ela é o lugar onde floresce o Espírito” (CIC nº 749/750).
- A Comunhão dos Santos: Já pensaste que nunca estás sozinho a rezar? A “Comunhão dos Santos” é a grande rede social da fé. Ela une todos os cristãos: os que estão na Terra a lutar no dia a dia, os que estão a purificar-se e os que já estão no Céu com Deus. Há uma partilha espiritual de coisas boas (orações, talentos, amor) entre todos nós. Quando tu fazes o bem, geras uma onda positiva que ajuda toda a Igreja!
- No Catecismo: “Como todos os crentes formam um só corpo, o bem de uns é comunicado aos outros […] Pelo que a comunhão dos santos é a comunhão dos bens espirituais” (CIC nº 947).
- Na Bíblia: “Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.” (1 Coríntios 12, 26)
- A Vida Eterna: Esta é a meta final. A nossa vida não acaba num cemitério. Fomos feitos para a eternidade. Acreditar na “ressurreição da carne e na vida eterna” significa que a morte não tem a última palavra. Deus vai resgatar tudo o que tu és — o teu corpo, a tua história, os teus afetos — para uma vida de felicidade plena onde não haverá mais sofrimento, solidão ou lágrimas.
- Na Bíblia: “E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor.” (Apocalipse 21, 4)
- No Catecismo: “O cristão que une a sua própria morte à de Jesus vê a morte como uma vinda a Ele e como a entrada na vida eterna” (CIC nº 1020).
3. Dizer “Creio” é um ato de coragem
Dizer “Creio” (Credo, em latim) significa muito mais do que dizer “acho que sim”. Significa “confio”, “entrego-me”, “podes contar comigo”. É um compromisso pessoal. Quando tu dizes “Creio”, estás a assinar por baixo uma forma de viver baseada no amor, na justiça e na esperança.
Santo Ambrósio, um santo muito antigo da Igreja, dizia algo espetacular aos jovens do seu tempo:
“O Símbolo é o selo espiritual, a meditação do nosso coração e o guardião sempre presente; é, sem dúvida, o tesouro da nossa alma.” — Citado no CIC nº 197
Num mundo cheio de opiniões passageiras, fake news e tendências de redes sociais que mudam de cinco em cinco minutos, o Credo é a tua rocha. É a base sólida onde podes construir a tua identidade sem medo de cair.
A tua fé não é um documento guardado numa gaveta; é o teu estilo de vida. Assume-a!
